Libearty: por dentro do maior santuário de ursos da Europa

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Desde a minha primeira visita à Romênia, mais de um ano atrás, meu sonho era visitar o Libearty, um santuário de ursos marrons e o maior da Europa. Localizado a 30km de Brasov, uma das maiores cidades do país, chegar lá não é tão fácil sem um carro por ser uma reserva natural e eu – que não sei dirigir, nem tinha ninguém que pudesse me levar – deixei quieto na época. Finalmente retornei à terra do Drácula depois de tanto tempo e tive a oportunidade de visitar esse lugar maravilhoso, num dia tão especial: meu aniversário (ok, um dia depois, mas vamos romantizar a coisa aqui).

Fundado em 2005 por Cristina Lapis, Libearty está longe de ser um zoológico. Aliás, eles resgatam ursos até mesmo dos que os maltratam, já que na União Europeia existe um certo padrão que todos os zoológicos devem seguir. Cristina sentiu necessidade de construir o santuário quase dez anos antes de sua data de abertura, ao se deparar com 3 ursos enjaulados num restaurante que tentava atrair turistas. Desde então, criou também a associação Milhões de Amigos em defesa dos animais.

A área onde o santuário está localizado consiste de nada menos que 700.000m² e foi doada pelo Município de Zarnesti. Infelizmente, cercas ainda são necessárias, pois nenhum dos ursos resgatados sobreviveriam se voltassem às florestas. De ursos encontrados com menos de 50kg, morrendo de fome, a ursos de circo alimentados a base de McDonald’s e cerveja (sim!), as histórias são de cortar o coração e perceber como o ser humano pode ir longe em sua maldade. Uma das histórias mais impressionantes foi a de um urso que nunca mais recuperará sua visão: seus olhos foram perfurados com agulhas para não reagir a flashes de turistas que desejassem tirar fotos com ele, muitos anos atrás, numa cidade romena.

Ao ouvir cada história, o maior desejo é de abraçar aqueles seres que, de verdade, parecem tão inocentes, e tentar descobrir uma forma de explicar pra eles que apesar da má sorte que eles tiveram, nem todos humanos são ruins – na minha cabeça, gosto de pensar que a maioria é bom. Mas ao vê-los se reintegrando, brincando na neve, subindo nas árvores, é fácil perceber que eles já sabem disso, graças a equipe desse espaço incrível.

Hoje em dia, o santuário conta com quase cem ursos. Durante a visita, vimos em torno de 20 a 30. Alguns ainda estão hibernando, outros em quarentena, outros simplesmente andando pelo espaço enorme que ainda estão descobrindo e cresceram sem imaginar que existisse. As visitas, sempre guiadas em romeno e inglês, acontecem de terça à domingo em apenas 3 horários, na parte da manhã. A entrada nessa época do ano custa 40 RON (cerca de R$30,00) e doações são sempre bem vindas, tanto no local como online, através do site oficial.

Com o coração feliz por tantos animais com uma vida tão triste hoje terem encontrado paz, uma parte não deixa de imaginar quantos outros não continuam sofrendo por aí. A associação continua na luta para trazer mais animais que já foram encontrados sob maus tratos mas ainda não foram liberados. Se antes a vontade era conhecer o Libearty, hoje é de voltar em breve pra ouvir novas histórias com finais feliz.

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Call me Maya entrevista: Michelle Alves, do Cabide Colorido

A primeira entrevista dessa série que quero fazer com muitos viajantes inspiradores foi com o Damon e a Jo, do Shut Up and Go (você pode ler clicando aqui) e agora é a vez de uma das minhas blogueiras/youtubers brasileiras favoritas: Michelle Alves, do Cabide Colorido.

Quando eu tinha uns 13 anos e já sabia que loguinho queria ver o mundo, uma das minhas primeiras ideias foi ser au pair. Por mais de um ano, Michelle viveu exatamente esse meu sonho lá no Colorado. Au Pair é praticamente uma babá de outro país. É um dos programas de intercâmbio mais em conta para meninas de 18 até 26 anos e existe em vários países, sendo os Estados Unidos o mais comum entre as brasileiras.

No canal do Cabide Colorido, Michelle compartilhou cada momento dessa experiência, além de todas as outras coisas com as quais ela se identifica. Durante o programa de Au Pair, ela fez várias viagens para diversos estados americanos e até uma viagem pra fora do país, direto pra Europa. Tudo tá bem documentado lá no Youtube e ela definitivamente serve de inspiração pra muita gente por aí. Hoje, ela está de volta ao Brasil para terminar a faculdade de Marketing e trabalha com mídias sociais, além de manter seu blog.

A Mi foi super legal e bateu um papo comigo sobre a experiência do intercâmbio. Mais uma vez, eu quis perguntar coisas que ainda não haviam sido respondidas no canal dela, então pra todo tipo de informação geral sobre o programa, dia a dia e gostos pessoais dela, é só clicar aqui e fazer uma maratona de vídeos do Cabide Colorido. A entrevista você confere abaixo:

Quando e como foi o momento em que você decidiu que queria fazer intercâmbio especificamente como au pair? Você considerou outros programas e países antes?
Eu só sabia que queria sair do país e me aventurar, aí minha amiga me falou do au pair, eu fechei e escolhi os EUA por “conhecer” um pouco mais do que os outros países que eram oferecidos. E é baratoooo né, melhor custo + beneficio de todos!

Você acha que a experiência como au pair em si, muito além de ter vivido em outro país, pode te ajudar aqui no Brasil? O que você aprendeu como au pair que pode aplicar na profissão que quer seguir?
Bom, no au pair eu levava uma vida de irmã mais velha né, aprendi muito a ter paciencia, lidar com crianças, melhorar o inglês e acima de tudo, conviver com uma cultura diferente da minha! Que na minha opinião, foi o maior desafio do intercâmbio.

Eu trabalhei em cruzeiros e vi muita gente indo trabalhar pensando que ia fazer turismo pelos portos quando na verdade tinha períodos que ficávamos dias sem sair, só trabalhando, o que acaba fazendo com que algumas pessoas desistissem. O que você acha que a pessoa precisa ter em mente antes de embarcar num intercâmbio de trabalho e quais são as coisas que as pessoas mais deduzem sobre au pair que não é verdade?
No au pair acontece o mesmo, as meninas acham que é férias, Disney, Califórnia e esquecem das 455 fraldas que terão que trocar, os 600 choros que vão ter que escutar etc. Au pair life não é glamourosa, você só conseguirá viajar e fazer tudo que quer se você administrar seu tempo e dinheiro! Familias legais existem sim, mas vai depender muito de você também, ser compreensível e respeitar o proximo em primeiro lugar.

Quais itens estavam na sua mala quando você foi para os EUA e voltaram com você para o Brasil?
Algumas makes nacionais que eu curto (tipo sombra da Vult), calça jeans porque eu tenho muito quadril e lá não achava nenhuma e leite de rosas! hahahaha

Como você estudava e praticava inglês antes de ir? Quais suas dicas de estudo de idiomas para quem ainda não pode bancar um intercâmbio e praticar fora?
Eu estudava em casa com filmes, séries e músicas. Prestava atenção na letra, lia as coisas em inglês, anotava palavras novas… isso ajuda mais do que a gente pensa! Apps como o Duolingo são ótimos também =)

Quais eram os pré-conceitos que você tinha sobre os americanos e o que se concretizou e quais foram quebrados?
Que todos eram gordos e Applemaníacos! hahaha Eles são bem legais, muita gente vive uma vida saudável e alguns são bem controlados quando o assunto é consumo. Eu não achei eles tão frios como as pessoas falam, por mais que eles não te abracem o tempo todo, eles fazem pequenas coisas no dia a dia (como trazer um Starbucks pra você do nada) que fazem a diferença.

Sei que muita gente sonha em fazer intercâmbio ou simplesmente viajar o mundo e a ideia de todas as entrevistas aqui do blog é lembrar que tudo é possível, de verdade. Se você estiver disposto a batalhar muito, tudo vai dar certo.

Vocês já conheciam a Michelle? Ela também é super ativa no Instagram e compartilha todas suas viagens por lá, é só seguir aqui.

Como funciona o controle de passaporte na Europa

Há muito tempo eu fiz um post sobre a imigração britânica e desde então eu me tornei uma pessoa que presta atenção em cada detalhe antes de entrar num novo país onde eu corra o risco de ser barrada. Vejo muita gente generalizando as próprias experiências e queria contar um pouco sobre as minhas – que são completamente opostas a muitas coisas que li antes de viajar pela primeira vez.

Controle de passaporte: come funziona

Você tendo seu passaporte brasileirinho ou uma cidadania europeia vai passar por controle de passaporte quando chegar num país novo. Pra quem tem o passaporte vinho fofinho costuma ser rápido e sem muita burocracia, não rola nem carimbo. Se você não tem um passaporte europeu vai ter uma ou duas filas específicas pra você ter seu passaporte carimbado (ou não né) e talvez uma checada básica nos seus documentos de praxe (passagens, reservas de hotel etc).

Onde eu vou fazer esse controle?

Na Europa, o controle funciona assim: se você está visitando a Schengen area, vai fazer o controle só quando entra no primeiro país dela. Por exemplo, Itália e Espanha fazem parte, então se você está viajando primeiro pra Roma e depois pra Barcelona, vai fazer só em Roma. Se você está em Roma e vai pra Bucareste, que apesar de ser UE não é Schengen, vai fazer nos dois (consequentemente, dois carimbinhos pra sua coleção). A polícia pode sim pedir para ver seus documentos entre países da Schengen, mas não é obrigatório. Para saber quais países fazem parte desta área, é só clicar aqui.

O que devo apresentar no guichê de imigração?

Olha, migo, é a mesma coisa que você me perguntar o que eu vou estar fazendo dia 5 de março de 2034. Não dá pra saber. Eles podem só falar Hola como pedir pra um oficial buscar sua mala despachada pra eles checarem até sua roupa suja (Inglaterra me traumatizou mesmo, desculpa). Já vivi diversas situações: não me pedirem nada, só fazerem 2 ou 3 perguntas, me pedirem reserva de hotel, passagem de volta e até um cara em Lisboa que insistiu que eu precisava de visto pra trabalhar em navio na Europa sendo que nós brasileiros não precisamos. Já encrencaram comigo até no próprio aeroporto de Guarulhos, pedindo meu contrato de trabalho da última vez que embarquei e analisando todas as cláusulas. É legal ter sempre com você a passagem de volta ou do próximo destino, reservas do hotel ou uma carta se você for ficar com algum parente ou amigo, seguro de vida ou, se você não tiver nada disso, ser bem convincente no que diz, hehe. Nunca vi ninguém apresentando extrato bancário como já li em muitos sites, o único lugar onde me perguntaram de grana foi na Inglaterra (contaram quanto eu tinha em cash e anotaram quantos cartões eu tinha).

O que eles vão me perguntar no controle de passaporte?

Como eu disse, eles podem fazer mil ou zero perguntas. Até hoje, o lugar onde me dei melhor foi na Itália. Já voei muitas vezes pra lá e de lá e nunca me perguntaram nada. Sempre passei rápido pelo da Romênia também, mas da última vez me pediram reserva de hotel, me perguntaram o que eu ia fazer e pra onde eu ia depois. As mais comuns são “quanto tempo você vai ficar?”, “por que você está aqui?”, “pra onde você vai depois?” e qualquer coisa nessa direção. Se você não fala inglês ou a língua local e encrencarem muito com você, eles precisam fornecer um tradutor da sua língua nativa para a deles.

Fui barrado, e agora?

Agora seu passaporte tem um carimbo feião e os próximos países podem até olhar feio pra ele, mas é importante saber o motivo pra saber se é algo que você pode tomar mais cuidado da próxima vez. É muito difícil isso acontecer, juro. Existem épocas do ano em que eles são mais rigorosos, como agora nos feriados de fim de ano, mas num geral ouvi poucas histórias de gente que foi mandado de volta pra casa. Se te barram e você precisa esperar muitas horas até o próximo vôo (pago por eles) de volta, você costuma ter direito a ligações, lanches, água a vontade, mas não pode pegar sua mala ou passaporte até estar fora do país, por exemplo. Meio terrorista, mas beleza, a maioria dos viajantes não passa por isso nenhuma vez na vida.

Confesso que a hora de carimbar o passaporte é a mais esperada e ao mesmo tempo temida por mim, principalmente porque pelos últimos dois anos viajei aleatoriamente por muito tempo e quase sempre sem uma passagem para o próximo destino, então vivo esperando que não me peçam documento nenhum e só me deixem ser feliz. Alô, puliça, não tô fazendo mal pra ninguém e prometo que a hora que meu dinheiro acabar volto pro Brasil, ficar ilegal não é comigo não 😛

Quais foram as experiências de vocês até hoje nos aeroportos do mundo? E quem quer contar um pouco sobre os EUA? 🙂 Escreve pra mim lá no blogcallmemaya@gmail.com

Call me Maya entrevista: Damon e Jo

Com a minha primeira viagem pra fora, veio também minha necessidade de conhecer pessoas que estivessem fazendo as mesmas coisas que eu. As redes sociais são minhas melhores amigas desde que saí de casa e não foi difícil encontrar pessoas incríveis no Instagram e principalmente no Youtube. Numa dessas pesquisas, encontrei o canal do Damon e da Jo, dois amigos americanos que vlogam sobre suas viagens pelo mundo.

O que mais chamou minha atenção no canal deles, muito além das viagens, foram as línguas que eles estão aprendendo e o fato da Jo ser brasileira, mas morar nos EUA desde muito pequenininha. Eles são super apaixonados pelo mundo e pelas diferentes culturas que temos espalhadas por aí e também escrevem sobre todas suas experiências no blog Shut Up and Go.

Depois de meses acompanhando o canal deles, criei meu blog e quando comecei meu brainstorm pra trazer coisas novas, mas ainda relacionadas a viagens, pra cá, imediatamente pensei em entrevistas incríveis com as pessoas que me inspiram a continuar vendo o mundo. Essa é a primeira de uma série de entrevistas com viajantes que acompanho e em breve teremos outra muito especial com uma youtuber que adoro.

Espero que gostem do papo com a Jo, traduzido do inglês para o português.

Depois de viver nesses lugares, eu notei como visitar um lugar por uma ou duas semanas é uma coisa, mas realmente morar lá é totalmente diferente. Onde, dos lugares que vocês já conheceram, você acha que você se adaptaria melhor à rotina diária e por quê?

Nenhum lugar é “fácil” de se adaptar, sempre existem pequenas coisas que aparecem e te fazem pensar “uau, eles fazem isso aqui?” ou até comparar sua cultura àquela que você está vivenciando. O incrível é que quanto mais você viaja, menos você compara e absorve mais. Depois de um tempo você se adapta rapidamente a qualquer lugar.

Como vocês escolheram o primeiro lugar para o qual viajaram juntos? Como, num geral, vocês decidem para onde ir? Existe um processo nisso?

Nós escolhemos viajar para Montreal na primeira vez porque era o lugar fora do país mais próximo e barato já que estávamos no campus da faculdade em Nova Iorque. Nós fomos por 5 dias durante o recesso de primavera e pagamos $300 por tudo. Todos nossos amigos se recusaram a ir porque queriam ter férias em Miami enquanto nós só queríamos viajar e conhecer novas coisas. Não existe um processo para decidir onde ir, nós geralmente vamos onde for mais barato ou se estamos aprendendo uma língua, então vamos onde ela é falada.

Vocês estão constantemente mostrando no seu canal como é fácil viajar com pouco dinheiro se você estiver disposto a abrir mão de luxo. É algo que vem naturalmente pra vocês ou vocês precisaram se ajustar e aprender a gastar menos dinheiro durante os anos? Qual a decisão mais difícil que vocês já precisaram fazer para bancar uma viagem?

Como nós dois viemos de famílias que não são ricas de nenhuma forma, nós dois valorizamos cada dólar. Nós somos bem pão duros e gostamos de poupar dinheiro com o que for possível. Eu diria que é natural não gastar $209358230598235 numa ida ao shopping ou num jantar. Nós acreditamos em qualidade, não quantidade, então às vezes extrapolamos, mas em coisas que são importantes e continuarão sendo com o decorrer do tempo. A decisão mais difícil ao viajar foi saber que tínhamos apenas pouquíssimo dinheiro pra sobreviver, e que teríamos um débito quando voltássemos pra casa e teríamos que encontrar um emprego pra pagar aquilo. Sempre funcionou, apesar de tudo, nós sempre lutamos muito pelo que queremos.

Se você pudesse começar uma nova nação com as melhores coisas dos países para os quais vocês viajaram, como seria essa nação?

O país teria o romance e a personalidade chic da França, massa e pizza da Itália, a energia e senso de humor brasileiro, a mente aberta da Alemanha, especificamente de Berlin, cataratas do Equador, música espanhola, comidas baratas de Portugal, florestas da Costa Rica, praias mexicanas e o espírito americano.

Vocês têm uma rotina antes e depois de uma viagem? Qual a primeira coisa que vocês fazem quando chegam num lugar e quando voltam pra casa?

Nós temos uma rotina de fazer as malas no último minuto, haha! Nós também fazemos uma pesquisa antes de chegar em países diferentes, especialmente se nós não vamos ter Wifi quando chegarmos. Nós gostamos de explorar cidades à pé ou com transporte público pra entender a geografia e então começamos a falar com estranhos no Facebook ou Couchsurfing pra marcarmos encontros e termos conselhos de pessoas locais. Quando chegamos em casa, nós geralmente temos milhões de ideias de posts pra escrever e constantemente vemos as fotos e vídeos da viagem e rimos de como loucos e jovens nós somos pra viver a vida tão plenamente. Nós somos muito gratos por não haver arrependimentos.

Último mas não menos importante: qual o maior conselho sobre viagens que alguém já te deu e qual seu conselho pra pessoas que ainda estão planejando sua primeira viagem pra fora?

“Você nunca vai saber a não ser que vá” foi um conselho que nós dois ouvimos de pessoas diferentes nas nossas vidas. Nosso conselho pra alguém planejando sua primeira viagem é “confie em si mesmo, cale a boca e vá”.

Jo foi uma querida nas respostas e fiquei muito feliz com o resultado. Sei que muitas das questões mais básicas não foram respondidas aqui, mas eles já têm um canal cheio de dicas, perguntas e respostas e tentei não repetir o que pode ser respondido através dos vídeos deles 🙂 Conheça o canal clicando aqui e siga os dois no Instagram aqui.

Entrada negada em Londres (e como evitar)

Destinos como Paris, Roma ou Londres nunca foram meus sonhos de consumo. Ainda assim, conheci Roma por conta do navio, Paris vou acabar conhecendo porque é a Disney mais próxima de mim e Londres teria sido meu destino de fim de ano em 2015 se não fosse pelo oficial que decidiu que eu não tinha o famigerado direito de ir e vir.

Primeiramente, hoje eu vejo o tanto de coisa errada que fiz – ou que não fiz. Fui despreparada, pensando que entrar na Inglaterra seria tão simples como entrar na Itália, por exemplo, onde nunca me pediram documentação nenhuma mesmo voando pra lá quase duas vezes por ano.

Eu já estava na Europa há um tempo, legalmente, mas ainda sob a permissão de turista e voei para Londres Stansted de Bucareste, só com uma passagem de ida. Na minha cabeça, não tinha nada errado com isso, já que eu não tinha certeza de quanto ficaria – o plano inicial era Natal e Ano Novo, mas talvez eu ficasse uma semana extra, afinal, tenho muitos amigos morando em Portsmouth, onde eu ficaria hospedada. Voo tranquilo, próximo de aterrissar pedem que todos passageiros de fora da UE preencham um papel dizendo quanto tempo vão ficar, motivo e endereço. Fiz o meu já com uma sensação de “tem algo errado no que eu tô escrevendo”. Na fila para passar pela imigração, várias pessoas, inclusive brasileiros, passando sem apresentar um único documento além do passaporte e eu pensei “ah, não é nenhum bicho de sete cabeças”.

Mas talvez a cada certo número de pessoas, eles precisem barrar alguém, né?

Eu fui a sortuda que teve que mostrar todos documentos possíveis. Responder todas perguntas possíveis. Ouvir “responde só o que eu te perguntar, sim ou não, sem explicações”. Levam meus documentos pra dentro. Pedem pra um oficial buscar minha mala comigo na esteira. Revistam minha mala. Me colocam numa salinha com uma mulher da Albania que tentou entrar com o passaporte da amiga e um cara de Israel que trabalhava ilegalmente em Londres. “Que que eu tô fazendo aqui?”

Um oficial me entrevistou. Depois outro. Tiraram minhas digitais, fizeram cópias de todos documentos que eu tinha na minha pasta (até de cartões de amigos!) e contaram até os centavos de outras moedas que tinha na carteira. Me informam que enquanto decidem se posso ou não entrar no país, tenho direito a uma ligação, água e comida (que generosos). Meu namorado na época esperando do lado de fora, sem saber o que estava acontecendo – celular em roaming e não recebia a minha chamada. Algum oficial avisa pra ele que eu não vou entrar antes mesmo de ME avisar e passa o número do telefone onde ele pode entrar em contato comigo. Horas de choro, vem a confirmação de que fui negada e os motivos: documentos demais, eu poderia procurar emprego no país, planos incertos e mais de 6 meses na área Schengen, a maior mentira e absurdo que eu ouvi por lá e que eu poderia provar com os carimbos do passaporte que não era verdade, já que nunca fiz nada ilegal na vida, mas ao tentar contestar eles dizem que “dá na mesma”. E fica tudo lá nos registros britânicos por 10 anos.

Meu voo chegou às 18h e exatamente 12 horas depois Londres me mandou de volta pra Bucareste, onde de novo tive que passar por um interrogatório, afinal, que país vai querer alguém que é mandada de volta? Coisa boa não é. Mas eu escolhi a Romênia como meu país do coração desde sempre e não foi à toa. Fiquei mais dois meses em Bucareste e foram os melhores dois meses da minha vida até então. E bem mais baratos que Londres.

Hoje a Inglaterra é um dos lugares que menos tenho vontade de conhecer, ainda mais depois do Brexit. Acabei conhecendo outros brasileiros que já foram negados no mesmo aeroporto, então minhas dicas seriam: evite Stansted, tenha sempre passagem de ida e volta, não carregue muitos documentos, né, porque até isso parece ser um problema, mas tenha a confirmação da sua hospedagem, extrato bancário e uma boa quantidade de libras em espécie também. No fundo, eu com as minhas crenças místicas, sei que tudo também depende de um pouco de sorte e de “era pra ser”.

Era pra ser e talvez tenha sido bem melhor assim.

Como viajar o mundo sem pagar por acomodação

A ideia de viajar o mundo atrai pelo menos 11 de 10 pessoas que conheço. Todo mundo sonha com aquelas férias em Bali, aquele inverno branquinho em Nova Iorque ou em simplesmente colocar uma mochila nas costas e fazer o que der na telha. O mesmo número de pessoas costuma reclamar que viajar é caro demais e fica só na imaginação. E se eu te dissesse que é possível viajar o mundo sem pagar por acomodação? (Eu juro que rimei sem querer.)

Já começo dizendo que não tem nada de sensacionalista nisso e quem escreve este post é alguém que fez uso dessa “prática” duas vezes nos últimos anos. Existem muitas possibilidades para viajar sem pagar nada pelo lugar onde você está ficando – como Couchsurfing ou ficando com amigos – e a que eu escolhi foi o trabalho voluntário em troca de acomodação.

É claro que nada vem fácil ou completamente de graça: é preciso estar disposto a exercer algum tipo de trabalho em fazendas, pousadas ou hosteis por algumas horas por semana para ter onde dormir, mas a experiência definitivamente vale a pena. Se você é do tipo aventureiro, então, vai adorar.

Eu descobri essa possibilidade em 2015 através do site Worldpackers, mas existem vários outros, como o HelpX e o Work Away. Basicamente, você monta seu perfil falando sobre seu trabalho, o que você faz, o que estaria disposto a fazer e começa a enviar solicitações para os (normalmente) hosteis com vagas abertas no país para onde deseja viajar. Estes sites têm algumas taxas uma vez que você encontra um anfitrião, que podem variar de 10 a 50 dólares, e são pagas uma vez por acomodação. É claro que eu, viajante pobrinha, tenho meu próprio jeitinho brasileiro e conto um pouco sobre ele no vídeo abaixo.

Agora falando sério: não é que eu aconselhe todo mundo a burlar esses sites, mas alguns hosteis realmente não se cadastram neles, então vale a pena enviar um e-mail direto para a administração de um lugar que você acha que seria bacana ficar. Se cadastrar por um site como o Worldpackers, por exemplo, te dá muito mais segurança – eles oferecem suporte 24h caso algo não esteja de acordo com o combinado e existem diversos benefícios para quem está disposto a pagar a taxa de viagem que, vamos combinar, não é nada para quem, muitas vezes, fica um mês ou até mais sem pagar uma única noite de hospedagem e às vezes tem até café da manhã gratuito.

Entre todas as dezenas de vagas que os hosteis abrem para voluntários, estão desde cleaner até design gráfico e eu já trabalhei com promoção de eventos do hostel e fazendo o design do novo menu do bar que um outro hostel abriria. Foi uma experiência inesquecível que eu recomendo pra quem é bem mente aberta e principalmente viaja sozinho, já que é uma ótima forma de fazer amizades também. Nos dois hosteis, fiquei em quartos de equipe, o que também é uma vantagem grande.

Se você já fez este tipo de trabalho ou está curioso e quer saber mais, deixa um comentário aqui no post e vamos todos viajar o mundo sem pagar por acomodação ♥

Como eu fiz minha primeira viagem internacional

Contanta, Romênia, 2015

Cedo na vida eu soube que precisava dar meus pulos e sair do Brasil. Não que eu não amasse o Brasil, até porque descobri que amo muito mais depois de sair de lá (daí?), mas porque o mundo é gigante e mesmo São Paulo sendo tão grande e que hoje eu saiba que tem um pouquinho do mundo todo nela, eu queria ver todo o resto, tudo o que não cabia ali.

Lembro de ter 13 anos e fazer planos mirabolantes pra juntar grana e sair de casa, mas quando comecei a trabalhar de verdade percebi que juntar grana morando em São Paulo não é pra qualquer um. Pra pouquíssimos, eu diria. O máximo que consegui juntar foi pra ir, tipo, pro Rio.

Ir para o Rio parece uma coisa bem rotineira pra algumas pessoas, considerando que de ônibus a gente não leva nem 10 horas pra chegar lá, mas foi divisor de águas na minha vida. Eu tinha acabado de fazer 20 anos, trabalhava numa empresa super cool, fazendo algo que eu não gostava muito e ganhando pouco. Quando digo pouco quero dizer pouco mesmo, nível estagiário, só que sem ser estagiária. Descontente e com uns problemas de saúde, eventualmente fiquei internada por uma semana e quando saí do hospital a primeira coisa que fiz, indo completamente contra as recomendações de repouso, foi voar – pela primeira vez na vida – pro Rio pra ver amigos da internet e minha atriz favorita – Tatá Werneck. Passei 2 dias lá e quando voltei eu simplesmente sabia que não podia mais ficar num lugar só.

As semanas seguintes foram marcadas por longas buscas no Google sobre como viajar baratinho, como morar fora, como trabalhar em outro país, até que os cookies do meu navegador ajudaram e me mostraram uma propaganda de uma agência pra trabalhar em navios. E é aí que a gente descobre que se a gente estiver ok com ralar muito na vida, a gente consegue qualquer coisa.

Minha semana no hospital foi em agosto e meu embarque pra Veneza – minha primeira viagem pra fora do Brasil – em outubro, o que, parando pra pensar hoje, foi um intervalo bem curto. Encontrei a agência da propaganda, apliquei pra qualquer vaga e em alguns dias tive a primeira entrevista. Tudo muito rápido porque cruzeiros entram em desespero por tripulantes no fim do ano devido a temporada brasileira. Traçaram meu perfil na entrevista e me perguntaram se eu me identificaria com vendas. Fui para o shopping da MSC como atendente, caixa, estoquista, uma grande faz tudo; eu basicamente tinha minha própria loja sozinha, só pra dar 10% da noção do que o trabalho é. Existem setores com trabalhos bem mais pesados e eu fiquei muito feliz com o shopping depois de ler sobre todos eles. Segunda entrevista com o RH da MSC depois de uma semana da primeira com a agência e: aprovada.

Tudo parece muito fácil até você calcular o investimento, que inclui: agenciamento, cursos e exames. De 2 a 3 mil reais, isso vivendo em SP, onde tecnicamente eu conseguia fazer tudo. Foi muito dinheiro emprestado, muito VR vendido e freelas que mal me deixavam dormir. Me desgastei muito, chorei, acordei 4:40 por 5 dias pra ir pra Santos fazer curso e voltar pra Sâo Paulo porque compensava mais que pagar hospedagem lá, o dia todo sem comer por motivo de grana, enfim, umas coisas muito loucas que a Mayara de outra época jamais faria. Aquela Mayara eu não conhecia mas já amava pakas.

Acho que é válido mencionar que eu sempre fui conhecida por não terminar as coisas. Técnico, faculdade, empregos, eu sempre larguei tudo por me identificar apenas com pouquíssimas coisas na vida. Isso era só mais uma coisa que as pessoas apostavam que iria perder a graça pra mim em dois meses.

Isso tudo já faz mais de um ano e desde então eu só voltei pro Brasil com o navio. Terminei os cursos e exame com sucesso, enviei a documentação e duas semanas depois me mandaram o contrato e a passagem pra Itália. Paguei todo mundo de volta com o meu primeiro salário e ainda comprei roupas lyndas. Aquelas, hahahaha. Quem nunca trabalhou em navio não faz ideia do trabalho duro que realmente é. A cada foto num país diferente que eu postava no Facebook, comentários como “ryca”, “queria ter dinheiro” etc, dominavam minha timeline, mas a realidade é tão diferente que se eu for contar cada detalhe de cada dia vão dizer que eu tô mentindo. Por trás da minha ~riqueza~ tinha umas caixas de 20kg sendo carregadas no ombro e mais de 6 meses trabalhando 11 horas por dia sem nenhuma folga na semana.

Mas a ideia sempre foi ver o mundo, né? Não importava como isso ia acontecer. E conforme eu escrevo tudo isso olhando pela janela da Starbucks do centro de Bucareste, espero que aconteça algo tão incrível assim com todo mundo pelo menos uma vez na vida.