Contanta, Romênia, 2015

Cedo na vida eu soube que precisava dar meus pulos e sair do Brasil. Não que eu não amasse o Brasil, até porque descobri que amo muito mais depois de sair de lá (daí?), mas porque o mundo é gigante e mesmo São Paulo sendo tão grande e que hoje eu saiba que tem um pouquinho do mundo todo nela, eu queria ver todo o resto, tudo o que não cabia ali.

Lembro de ter 13 anos e fazer planos mirabolantes pra juntar grana e sair de casa, mas quando comecei a trabalhar de verdade percebi que juntar grana morando em São Paulo não é pra qualquer um. Pra pouquíssimos, eu diria. O máximo que consegui juntar foi pra ir, tipo, pro Rio.

Ir para o Rio parece uma coisa bem rotineira pra algumas pessoas, considerando que de ônibus a gente não leva nem 10 horas pra chegar lá, mas foi divisor de águas na minha vida. Eu tinha acabado de fazer 20 anos, trabalhava numa empresa super cool, fazendo algo que eu não gostava muito e ganhando pouco. Quando digo pouco quero dizer pouco mesmo, nível estagiário, só que sem ser estagiária. Descontente e com uns problemas de saúde, eventualmente fiquei internada por uma semana e quando saí do hospital a primeira coisa que fiz, indo completamente contra as recomendações de repouso, foi voar – pela primeira vez na vida – pro Rio pra ver amigos da internet e minha atriz favorita – Tatá Werneck. Passei 2 dias lá e quando voltei eu simplesmente sabia que não podia mais ficar num lugar só.

As semanas seguintes foram marcadas por longas buscas no Google sobre como viajar baratinho, como morar fora, como trabalhar em outro país, até que os cookies do meu navegador ajudaram e me mostraram uma propaganda de uma agência pra trabalhar em navios. E é aí que a gente descobre que se a gente estiver ok com ralar muito na vida, a gente consegue qualquer coisa.

Minha semana no hospital foi em agosto e meu embarque pra Veneza – minha primeira viagem pra fora do Brasil – em outubro, o que, parando pra pensar hoje, foi um intervalo bem curto. Encontrei a agência da propaganda, apliquei pra qualquer vaga e em alguns dias tive a primeira entrevista. Tudo muito rápido porque cruzeiros entram em desespero por tripulantes no fim do ano devido a temporada brasileira. Traçaram meu perfil na entrevista e me perguntaram se eu me identificaria com vendas. Fui para o shopping da MSC como atendente, caixa, estoquista, uma grande faz tudo; eu basicamente tinha minha própria loja sozinha, só pra dar 10% da noção do que o trabalho é. Existem setores com trabalhos bem mais pesados e eu fiquei muito feliz com o shopping depois de ler sobre todos eles. Segunda entrevista com o RH da MSC depois de uma semana da primeira com a agência e: aprovada.

Tudo parece muito fácil até você calcular o investimento, que inclui: agenciamento, cursos e exames. De 2 a 3 mil reais, isso vivendo em SP, onde tecnicamente eu conseguia fazer tudo. Foi muito dinheiro emprestado, muito VR vendido e freelas que mal me deixavam dormir. Me desgastei muito, chorei, acordei 4:40 por 5 dias pra ir pra Santos fazer curso e voltar pra Sâo Paulo porque compensava mais que pagar hospedagem lá, o dia todo sem comer por motivo de grana, enfim, umas coisas muito loucas que a Mayara de outra época jamais faria. Aquela Mayara eu não conhecia mas já amava pakas.

Acho que é válido mencionar que eu sempre fui conhecida por não terminar as coisas. Técnico, faculdade, empregos, eu sempre larguei tudo por me identificar apenas com pouquíssimas coisas na vida. Isso era só mais uma coisa que as pessoas apostavam que iria perder a graça pra mim em dois meses.

Isso tudo já faz mais de um ano e desde então eu só voltei pro Brasil com o navio. Terminei os cursos e exame com sucesso, enviei a documentação e duas semanas depois me mandaram o contrato e a passagem pra Itália. Paguei todo mundo de volta com o meu primeiro salário e ainda comprei roupas lyndas. Aquelas, hahahaha. Quem nunca trabalhou em navio não faz ideia do trabalho duro que realmente é. A cada foto num país diferente que eu postava no Facebook, comentários como “ryca”, “queria ter dinheiro” etc, dominavam minha timeline, mas a realidade é tão diferente que se eu for contar cada detalhe de cada dia vão dizer que eu tô mentindo. Por trás da minha ~riqueza~ tinha umas caixas de 20kg sendo carregadas no ombro e mais de 6 meses trabalhando 11 horas por dia sem nenhuma folga na semana.

Mas a ideia sempre foi ver o mundo, né? Não importava como isso ia acontecer. E conforme eu escrevo tudo isso olhando pela janela da Starbucks do centro de Bucareste, espero que aconteça algo tão incrível assim com todo mundo pelo menos uma vez na vida.

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