Destinos como Paris, Roma ou Londres nunca foram meus sonhos de consumo. Ainda assim, conheci Roma por conta do navio, Paris vou acabar conhecendo porque é a Disney mais próxima de mim e Londres teria sido meu destino de fim de ano em 2015 se não fosse pelo oficial que decidiu que eu não tinha o famigerado direito de ir e vir.

Primeiramente, hoje eu vejo o tanto de coisa errada que fiz – ou que não fiz. Fui despreparada, pensando que entrar na Inglaterra seria tão simples como entrar na Itália, por exemplo, onde nunca me pediram documentação nenhuma mesmo voando pra lá quase duas vezes por ano.

Eu já estava na Europa há um tempo, legalmente, mas ainda sob a permissão de turista e voei para Londres Stansted de Bucareste, só com uma passagem de ida. Na minha cabeça, não tinha nada errado com isso, já que eu não tinha certeza de quanto ficaria – o plano inicial era Natal e Ano Novo, mas talvez eu ficasse uma semana extra, afinal, tenho muitos amigos morando em Portsmouth, onde eu ficaria hospedada. Voo tranquilo, próximo de aterrissar pedem que todos passageiros de fora da UE preencham um papel dizendo quanto tempo vão ficar, motivo e endereço. Fiz o meu já com uma sensação de “tem algo errado no que eu tô escrevendo”. Na fila para passar pela imigração, várias pessoas, inclusive brasileiros, passando sem apresentar um único documento além do passaporte e eu pensei “ah, não é nenhum bicho de sete cabeças”.

Mas talvez a cada certo número de pessoas, eles precisem barrar alguém, né?

Eu fui a sortuda que teve que mostrar todos documentos possíveis. Responder todas perguntas possíveis. Ouvir “responde só o que eu te perguntar, sim ou não, sem explicações”. Levam meus documentos pra dentro. Pedem pra um oficial buscar minha mala comigo na esteira. Revistam minha mala. Me colocam numa salinha com uma mulher da Albania que tentou entrar com o passaporte da amiga e um cara de Israel que trabalhava ilegalmente em Londres. “Que que eu tô fazendo aqui?”

Um oficial me entrevistou. Depois outro. Tiraram minhas digitais, fizeram cópias de todos documentos que eu tinha na minha pasta (até de cartões de amigos!) e contaram até os centavos de outras moedas que tinha na carteira. Me informam que enquanto decidem se posso ou não entrar no país, tenho direito a uma ligação, água e comida (que generosos). Meu namorado na época esperando do lado de fora, sem saber o que estava acontecendo – celular em roaming e não recebia a minha chamada. Algum oficial avisa pra ele que eu não vou entrar antes mesmo de ME avisar e passa o número do telefone onde ele pode entrar em contato comigo. Horas de choro, vem a confirmação de que fui negada e os motivos: documentos demais, eu poderia procurar emprego no país, planos incertos e mais de 6 meses na área Schengen, a maior mentira e absurdo que eu ouvi por lá e que eu poderia provar com os carimbos do passaporte que não era verdade, já que nunca fiz nada ilegal na vida, mas ao tentar contestar eles dizem que “dá na mesma”. E fica tudo lá nos registros britânicos por 10 anos.

Meu voo chegou às 18h e exatamente 12 horas depois Londres me mandou de volta pra Bucareste, onde de novo tive que passar por um interrogatório, afinal, que país vai querer alguém que é mandada de volta? Coisa boa não é. Mas eu escolhi a Romênia como meu país do coração desde sempre e não foi à toa. Fiquei mais dois meses em Bucareste e foram os melhores dois meses da minha vida até então. E bem mais baratos que Londres.

Hoje a Inglaterra é um dos lugares que menos tenho vontade de conhecer, ainda mais depois do Brexit. Acabei conhecendo outros brasileiros que já foram negados no mesmo aeroporto, então minhas dicas seriam: evite Stansted, tenha sempre passagem de ida e volta, não carregue muitos documentos, né, porque até isso parece ser um problema, mas tenha a confirmação da sua hospedagem, extrato bancário e uma boa quantidade de libras em espécie também. No fundo, eu com as minhas crenças místicas, sei que tudo também depende de um pouco de sorte e de “era pra ser”.

Era pra ser e talvez tenha sido bem melhor assim.

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