Vida a bordo

10 motivos para trabalhar em navios

A experiência que mais mudou minha vida até hoje foi ser tripulante num navio de passageiros. Não é fácil, as dúvidas antes de embarcar são muitas, mas é definitivamente gratificante. Você convive com pessoas de várias nacionalidades – tripulantes e passageiros -, não paga acomodação nem refeições, ganha em dólares e conhece vááários países. Nem tudo é flores, mas a parte boa é realmente boa e faz até as dificuldades valerem a pena.

Eu sou uma eterna apaixonada pelo mar e tento sempre ajudar quem quer literalmente embarcar nessa aventura, então resolvi listar os 10 motivos para trabalhar em navios e que me fazem continuar considerando esse estilo de vida pra mim. Bora lá:

  1. VIAJAR. Tá, a verdade é um pouco distante dessa e, pelo amor de Deus, não vá trabalhar em navio pensando que é um intercâmbio: no navio a gente rala muito, nem sempre consegue sair no porto, trabalha sem folga por 7 meses (sim!), mas mesmo cansado e às vezes com só 2 horinhas livres no horário em que o navio está atracado, a gente sai correndo pra conhecer um lugar novo ou revisitar aquela cidade que tanto amou conhecer.
  2. DINHEIRO. No navio, os gastos são mínimos. Bebida no bar de tripulante é barata (e, acredite, mesmo se você não bebe, no navio vai beber), ninguém te cobra pela sua acomodação e comida e, se você resistir às comprinhas nos portos, vai guardar uma grana muito boa nos 7 meses que ficar a bordo, já que o salário é sempre em dólares, alguns departamentos têm comissões e outros gorjetas.
  3. AMIZADES. Você embarca sem conhecer ninguém, morrendo de medo de ficar forever alone, mas na segunda semana a bordo já tá postando fotinho no Instagram com algum colega de departamento que na verdade já virou melhor amigo pra sempre, simplesmente porque no navio as coisas são intensas, o tempo passa diferente, você convive quase 24h por dia com as mesmas pessoas – que passam exatamente pelo que você passa. Só quem já trabalhou embarcado sabe o que é ter um amigo de navio.
  4. IDIOMAS. E eu não tô mentindo. Alguns você vai aprender no embromation, outros (como italiano, na maioria das vezes) você vai ficar fluente. Principalmente se seu cargo tem contato direto com passageiros, não tem como não aprender o básico de espanhol, francês, italiano, alemão e às vezes até um russo ou chinês. Algumas companhias até têm aulas de idiomas pra tripulantes, mas eu juro que você vai aprender quase num passe de mágica.
  5. RESPONSABILIDADE E TOLERÂNCIA. Esquece a tolerância de 15 minutos de atraso que seu emprego de terra tem, esquece seu quarto enorme só pra você na sua casa e não misture as coisas quando uma noite você estiver bebendo com seu chefe até todo mundo ficar mal e no dia seguinte você for trabalhar. As regras no navio são rígidas e mesmo existindo o famoso jeitinho brasileiro (que eu carinhosamente também apelido de jeitinho italiano) pra quase tudo, a verdade é que você cresce muito como pessoa aprendendo a cuidar de si mesmo e respeitar o espaço do outro.
  6. UNIVERSO PARALELO. Uma das coisas que me fez querer embarcar foi a ideia de me redescobrir, de poder chegar num lugar onde ninguém me conhecia e ser exatamente quem eu era – ou mudar completamente de uma vez por todas, sem palpites e julgamentos. Quando desembarquei, parecia que tudo tinha dado um pause em casa, poucas coisas tinham mudado e eu era uma pessoa 100% nova. Parece que existe uma vida aqui fora e outra no navio e não conheço ninguém que ache isso ruim.
  7. CRESCIMENTO PROFISSIONAL. Vida de navio não é pra sempre, isso é fato. É preciso estipular uma meta – seja ela em anos ou financeira – e pular fora quando atingi-la pra poder construir sua vida em terra também. Em departamentos menores, as chances de crescer dentro e eventualmente até conseguir um emprego no escritório fixo da empresa são bem grandes. E se você não quiser um emprego que tenha a ver com a vida a bordo, sua experiência no navio também pode te ajudar a conseguir empregos incríveis. Clique aqui e leia um artigo incrível no LinkedIn sobre as vantagens de contratar ex-tripulantes.
  8. ADMINISTRAR TEMPO E SOLUCIONAR PROBLEMAS. É dia de navegação, você entra às 9h, tem um intervalo de 30 min pra almoço, 1h30 de descanso a tarde, 45 min de janta e continua trabalhando até 1h. 14, 15 horas de trabalho em um dia podem acontecer e você vai perceber que mesmo assim tem tempo pra tomar seu banho, se maquiar, dormir um pouco, tomar sua cerveja, fazer suas refeições, tomar seu café e às vezes até fazer uma festa depois do expediente. E se aparecer qualquer problema no meio disso tudo, você quase nunca vai querer chamar seu chefe e vai ter que aprender a se virar nos 30 pra fazer as coisas andarem.
  9. SE DESCONECTAR. Isso pode não parecer uma coisa muito boa, mas para mim foi muito importante: a internet do navio é bem cara, então você aprende a filtrar o que é realmente necessário. Eu sempre fui uma pessoa viciada em internet, de passar pelo menos 10 horas do meu dia na frente do computador mesmo quando não estava trabalhando nele. Acabava consumindo conteúdo que não acrescentava nada na minha vida, stalkeando gente que já nem devia mais lembrar o nome e chegava a me fazer mal. O navio não te dá tempo nem recursos pra desperdiçar a vida com o que não é relevante e eu acho que isso foi fundamental pra minha saúde mental lá dentro.
  10. REALIZAÇÃO. Não tem sensação melhor que completar um contrato. Lembrar de tudo que você passou pra chegar ali, as vezes que teve que lutar contra a saudade de casa, engolir sapos dos chefes, trabalhar 15 horas num dia e tudo que parecia impossível antes de você começar essa segunda vida. Sempre que alguém me fala que quer ir embora antes da hora, eu tento fazer a pessoa entender que existem muito mais vantagens em continuar e no final tudo é muito gratificante. E o que passa a doer depois é a saudade dos amigos, dos lugares lindos e a gente não vê a hora de reembarcar <3

Se você tem qualquer dúvida sobre trabalhar em cruzeiros, entra em contato comigo que eu vou AMAR te ajudar. Confira também:

Como eu fiz minha primeira viagem internacional

Contanta, Romênia, 2015

Cedo na vida eu soube que precisava dar meus pulos e sair do Brasil. Não que eu não amasse o Brasil, até porque descobri que amo muito mais depois de sair de lá (daí?), mas porque o mundo é gigante e mesmo São Paulo sendo tão grande e que hoje eu saiba que tem um pouquinho do mundo todo nela, eu queria ver todo o resto, tudo o que não cabia ali.

Lembro de ter 13 anos e fazer planos mirabolantes pra juntar grana e sair de casa, mas quando comecei a trabalhar de verdade percebi que juntar grana morando em São Paulo não é pra qualquer um. Pra pouquíssimos, eu diria. O máximo que consegui juntar foi pra ir, tipo, pro Rio.

Ir para o Rio parece uma coisa bem rotineira pra algumas pessoas, considerando que de ônibus a gente não leva nem 10 horas pra chegar lá, mas foi divisor de águas na minha vida. Eu tinha acabado de fazer 20 anos, trabalhava numa empresa super cool, fazendo algo que eu não gostava muito e ganhando pouco. Quando digo pouco quero dizer pouco mesmo, nível estagiário, só que sem ser estagiária. Descontente e com uns problemas de saúde, eventualmente fiquei internada por uma semana e quando saí do hospital a primeira coisa que fiz, indo completamente contra as recomendações de repouso, foi voar – pela primeira vez na vida – pro Rio pra ver amigos da internet e minha atriz favorita – Tatá Werneck. Passei 2 dias lá e quando voltei eu simplesmente sabia que não podia mais ficar num lugar só.

As semanas seguintes foram marcadas por longas buscas no Google sobre como viajar baratinho, como morar fora, como trabalhar em outro país, até que os cookies do meu navegador ajudaram e me mostraram uma propaganda de uma agência pra trabalhar em navios. E é aí que a gente descobre que se a gente estiver ok com ralar muito na vida, a gente consegue qualquer coisa.

Minha semana no hospital foi em agosto e meu embarque pra Veneza – minha primeira viagem pra fora do Brasil – em outubro, o que, parando pra pensar hoje, foi um intervalo bem curto. Encontrei a agência da propaganda, apliquei pra qualquer vaga e em alguns dias tive a primeira entrevista. Tudo muito rápido porque cruzeiros entram em desespero por tripulantes no fim do ano devido a temporada brasileira. Traçaram meu perfil na entrevista e me perguntaram se eu me identificaria com vendas. Fui para o shopping da MSC como atendente, caixa, estoquista, uma grande faz tudo; eu basicamente tinha minha própria loja sozinha, só pra dar 10% da noção do que o trabalho é. Existem setores com trabalhos bem mais pesados e eu fiquei muito feliz com o shopping depois de ler sobre todos eles. Segunda entrevista com o RH da MSC depois de uma semana da primeira com a agência e: aprovada.

Tudo parece muito fácil até você calcular o investimento, que inclui: agenciamento, cursos e exames. De 2 a 3 mil reais, isso vivendo em SP, onde tecnicamente eu conseguia fazer tudo. Foi muito dinheiro emprestado, muito VR vendido e freelas que mal me deixavam dormir. Me desgastei muito, chorei, acordei 4:40 por 5 dias pra ir pra Santos fazer curso e voltar pra Sâo Paulo porque compensava mais que pagar hospedagem lá, o dia todo sem comer por motivo de grana, enfim, umas coisas muito loucas que a Mayara de outra época jamais faria. Aquela Mayara eu não conhecia mas já amava pakas.

Acho que é válido mencionar que eu sempre fui conhecida por não terminar as coisas. Técnico, faculdade, empregos, eu sempre larguei tudo por me identificar apenas com pouquíssimas coisas na vida. Isso era só mais uma coisa que as pessoas apostavam que iria perder a graça pra mim em dois meses.

Isso tudo já faz mais de um ano e desde então eu só voltei pro Brasil com o navio. Terminei os cursos e exame com sucesso, enviei a documentação e duas semanas depois me mandaram o contrato e a passagem pra Itália. Paguei todo mundo de volta com o meu primeiro salário e ainda comprei roupas lyndas. Aquelas, hahahaha. Quem nunca trabalhou em navio não faz ideia do trabalho duro que realmente é. A cada foto num país diferente que eu postava no Facebook, comentários como “ryca”, “queria ter dinheiro” etc, dominavam minha timeline, mas a realidade é tão diferente que se eu for contar cada detalhe de cada dia vão dizer que eu tô mentindo. Por trás da minha ~riqueza~ tinha umas caixas de 20kg sendo carregadas no ombro e mais de 6 meses trabalhando 11 horas por dia sem nenhuma folga na semana.

Mas a ideia sempre foi ver o mundo, né? Não importava como isso ia acontecer. E conforme eu escrevo tudo isso olhando pela janela da Starbucks do centro de Bucareste, espero que aconteça algo tão incrível assim com todo mundo pelo menos uma vez na vida.